Conteúdo Especial

Territórios de Cultura: Estranha escuta

São 15 horas, alguém espera sentado no chão, chega um outro alguém, eles acendem um cigarro, conversam, escrevem, tem sempre uma mensagem dela dizendo, estou chegando, um pouco atrasada, mas chegando, chega mais alguém, abraços, “sua calça é um bafo, poc!”, ele diz.

Ela chega, finalmente abre a porta, eles entram, cada um avança no seu tempo, sem pressa. Ele conta sobre o babado do final de semana, alguém está quieta retirando os sapatos ali do lado, chega outro de olhos pequenos, mochila nas costas, carrega um segredo.

Ela pergunta de alguém que não vem há dois dias. Do banheiro, alguém diz que este alguém não vem mais, arranjou um emprego, precisa ajudar em casa, cuidar de um primo, fazer um curso profissionalizante, não vem mais.

São eles e elas, elas e eles, chegando e não chegando, compondo aquele lugar que seria só edifício e construção não fossem eles e elas. Diferentes elas e eles cheios de história, memória, contradição, certeza, receio, tristeza.

E nessas diferenças há também um tanto de semelhança. É que eles e elas são jovens, jovens moradores da região do Jardim Marek, em Santo André, enfrentando isso que chamam de juventude.

Há os que digam que é a melhor fase da vida, cheia de possibilidades, nada por temer. Estes normalmente já passaram por ela e vivem um certo saudosismo de seu passado misturado com o ressentimento do papel que cumprem agora como adultos.

 

“É necessário que você me toque para eu saber que eu sinto, é necessário que você me olhe para eu saber que eu existo.”

Antonio Januzelli

 

Ser jovem é sim um mundo de possibilidades, mas este mundo não vem sozinho, não está à disposição por tempo indeterminado. São possibilidades mediadas por adultos, pela escola, pela família, pelas escolhas dos outros amigos, por morais, por ideais de sucesso, por necessidades básicas. As expectativas em torno do que este jovem vai ser acabam por moldá-lo, acabam por decidir por ele aquilo que ele deveria decidir por si, em processo.

“Me toque, me olhe e me escute. Para que eu exista.” Os eles e elas que adentram aquela sala depois das 15 horas, cada um com sua história, todos os eles e elas pedem por existir. Existir por si só, pelo que se é.

Então, ali, naquelas poucas três horas semanais, naquele espaço que é só deles e que sem eles seria só edifício, eles existem. Existem porque são escutados, olhados e tocados. Existem porque se tornam protagonistas de suas histórias, não numa lógica empreendedora de sucesso, mas porque se tornam donos de suas escolhas, cientes de suas contradições e das contradições daqueles que os rodeiam.

O teatro, como espaço e como ação, como norteador e território deste encontro, é uma experiência de deslocamento de olhar para a vida, para si e para o outro: alteridade e emancipação.

 

A palavra experiência, derivada do latin experiri, traz consigo o sentido de provar, tentar. O radical é periri, que se encontra também em periculum, perigo. A raiz indo-européia é per, com a qual se relaciona antes de tudo a ideia de travessia. O que nos sugere a noção de se colocar em risco, de se embrenhar em zonas desconhecidas, cruzar regiões perigosas, e que nos possibilita pensar a experiência poética como perdição na linguagem, como invenção de possibilidades de fazer soar o desconhecido, o não dito, como percurso de produção de conhecimentos e subjetividades. O que não tem nada de irracional e muito menos de confusão, mas que se afasta da razão instrumental e instaura o prazer de um procedimento que se contrapõe ao modo meramente operante de ver, sentir e pensar a vida”.

Flávio Desgranges

 

Este espaço estranho, com gente estranha fazendo coisa estranha, é o espaço da experiência do teatro. Do colocar-se em perigo, de encontrar-se com suas subjetividades, porque exposto de dentro pra fora e não imposto de fora pra dentro.

Haverá sempre os adultos a exigir a função disso, a função da arte. Não sejamos ingênuos: jamais negar a estrutura capital do princípio econômico que rege a sociedade e que cria pais que urgem por garantir a sobrevivência de seus filhos mesmo na sua ausência, estes pais não são malvados cruéis insensíveis, pelo contrário, quem haveria de lutar pelos nossos filhos?

Mas na busca incessante por ferramentalizar seus filhos, exigem de qualquer experiência a ferramenta, esquecem que os “brinquedos” também são necessários.

 

“ ‘Ferramentas’ são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia. ‘Brinquedos’ são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramenta, dão prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo o coral da 9a sinfonia. Não é ferramenta. Não serve pra nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramenta e brinquedo, está o resumo da educação. […] Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer…”

Rubem Alves

 

Eles e elas andam deprimidos, tristes, solitários. Numa sociedade contemporânea cheia de abas abertas de escolhas, pouco espaço para que eles apenas existam. Nós, adultos, somos responsáveis pela alegria jovem, por lhes darmos asas. O teatro é asa, uma estranha escuta que os permite voar.


Bibliografia

JANUZELLI,  Antonio Luiz Dias. O ofício do ator e os estágio das transparência. Tese de Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Artes. Universidade de São Paulo, 1992.

DESGRANGES, Flavio – A inversão da olhadela: alterações no ato do espectador teatral. São Paulo: Editora Hucitec, 2012.

ALVES, Rubens – Gaiolas ou asas. A arte do voo ou a busca da alegria de aprender. Porto: Edições Asa, 2004.


Lígia Helena é arte-educadora do Programa Territórios de Cultura ministrando a Oficina de Teatro para Jovens e Adultos no CEU das Artes Jd. Marek. Atriz da Cia. Estrela D’Alva de Teatro, pela qual coordena o projeto Escola Itinerante de Teatro. Formada pela Escola Livre de Teatro (ELT).

 

Jovens atuadores: Caio Barros Ferreira, Chielly Aparecida da Silva, Erick da Silva Lopes, Gabriel Ferraz Brito, Kelly Souza Oliveira, Ketelly Souza Oliveira, Tainara Silva, William Edmilson da Silva, Yara Aguiar Rangel.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas